Cumbe

Cumbe

Em Cumbe, o autor Marcelo D’Salete conta de forma magistral histórias com personagens que parecem sair do papel a cada quadro, que em busca da liberdade ou apenas de paz, fazem referência a um período que queremos esquecer mas que ainda tem muito o que ensinar a todas as raças.

A primeira história do livro se chama Calunga e mostra o escravo Valu, que como muitos deseja fugir daquela vida, e por que não fazer isso ao lado de seu grande amor? Sumidouro é um retrato para muitas mulheres negras do período, que devido a obediência aos seus senhores não possuíam direitos sobre suas descendências. O álbum se fecha com Cumbe e Malungo, uma pequena saga sobre fuga, quilombos e vingança. Na verdade fica difícil falar muito sobre essas histórias sem tirar o brilho da narrativa, que tem um caráter documental muito interessante, pois ao contrário de muitos quadrinhos sobre o período, faz questão de demonstrar que os escravos não eram apenas uma massa de trabalho vinda de um único local, e sim pessoas vindas de várias nações e com costumes e crenças diferenciadas. Como o autor também é professor de história, os fatos são embasados em uma vasta bibliografia, que com certeza virará leitura complementar para vocês.

E não poderia fechar esse review sem falar do traço. Quando conheci o Marcelo D’Salete, até comentei o quanto achei seu trabalho parecido com o de Hugo Pratt, autor italiano que criava muitas histórias fantasiosas mas com ambientação realista e envolvente, sem deixar de ter um tom de aventura. Não que os dois autores tenham estilo de arte foto-realista, mas conseguem transpor a mente do leitor para o período que querem usando poucas linhas. A vantagem do brasileiro, para nós, é que fala de temas que ainda são pertinentes ao nosso dia a dia, pois ranços do período de escravidão ainda resistem até hoje, o que faz as narrativas do livro lembrarem muito do que ainda sofremos atualmente. Se fosse dar uma nota pra Cumbe, com certeza seria 10 de 10.


18/08/2016
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.