O poder do novo gibi do Pantera Negra

O poder do novo gibi do Pantera Negra

Pouco antes de aprender a ler, cerca de 30 anos atrás, eu já lia gibis. Durante a maior parte desse período, oPantera Negra nunca havia sido um dos meus heróis prediletos. Hoje, só perde para a Tempestade como número 1 do meu coração.

Quando anunciaram a novíssima série solo do Pantera, na esteira de sua estreia no Universo Cinematográfico da Marvel, no filme Capitão América: Guerra Civil, fui tomado por uma felicidade enorme. Estava mais ansioso para ler o novo gibi do Pantera do que o novíssimo gibi do menino Miles Morales - Homem-Aranha havia sido o primeiro herói de quadrinhos do qual eu realmente gostei para valer.

E então, digo: a espera valeu. E muito. Black Panther #1 é um gibi espetacular.


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Rei T’Challa, o Pantera Negra, um super gênio científico, espiritual e atlético, monarca da super nação africanaWakanda, é o herói com rosto africano mais emblemático e mais importante de toda a cultura pop. É um símbolo de tamanha magnitude que se expande muito além do público de quadrinhos. A iminente estreia do Pantera Negra nas telas de cinema tem sido alardeada por meios de comunicação de todo o mundo, e imensamente aguardada por homens, mulheres, crianças e adultos - especialmente nós que também possuímos rosto africano. Os criadores do personagem, Stan Lee e Jack Kirby, quando o introduziram no gibi do Quarteto Fantástico em 1966, provavelmente não tinham noção do que o Pantera se tornaria hoje para o mundo.

Esta nova série que acabou de estrear é roteirizada pelo escritor afro-americano Ta-Nehisi Coates, e leva os desenhos do também afro-americano ilustrador Brian Stelfreeze. Admito que, antes do anúncio da nova série, eu não conhecia nenhum dos dois; e vim a descobrir que ambos são profissionais verdadeiramente excepcionais.


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Ta-Nehisi Coates é um jovem escritor de 40 anos, jornalista e educador, ganhador de prêmios a respeito da sua obra jornalística e literária sobre raça, história e sociedade. Brian Stelfreeze desenhou vários gibis DC e Marvel que eu já li mas não sabia porque infelizmente eu não tinha o hábito de ler o nome dos profissionais envolvidos.

Pode ser que o Pantera Negra não fosse um dos meus heróis prediletos porque seus primeiros roteiristas retratavam o personagem mais como um símbolo do que como um personagem. Como monarca da nação mais avançada espiritual e tecnologicamente de todo o mundo, superinteligente e super atlético, sem quaisquer falhas morais ou inseguranças, T’Challa para mim parecia mais um estereótipo positivo forçado do que um ser humano propriamente dito. O que contrastava muito com os demais heróis falíveis do restante do Universo Marvel.

Tal perspectiva começou a mudar para melhor quando T’Challa passou a ser roteirizado pelo cineasta afro-americano Reginald Hudlin, entre 2005 e 2010, que começou com o excelente e cinematográfico arco Quem é o Pantera Negra e passou pela Guerra Civil dos quadrinhos e pelo seu noivado e consequente casamento com a Tempestade. Foi a partir da passagem de Hudlin que eu realmente comecei a gostar, admirar e posteriormente me apaixonar pelo personagem. Foi a primeira vez que enxerguei T’Challa como um homem, como um homem negro que carrega nas costas a responsabilidade não só como monarca do mais poderoso país africano do mundo, mas também a responsabilidade de ser um homem negro que representa muitíssimo para a comunidade negra do mundo inteiro.


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Isso posto, devo dizer: o Pantera de Coates talvez seja o mais humano de todos os Panteras já apresentados.

Logo nas primeiras páginas, o T’Challa de Coates nos presenteia com seus diálogos internos. Suas considerações, suas dúvidas, suas inseguranças, seus arrependimentos. Caído e com a testa sangrando, em meio a uma revolta de trabalhadores, Rei T’Challa questiona a si mesmo e suas escolhas. Tal perspectiva, aliada ao insurgimento violento de seus súditos mineradores que ocorre naquele instante, desconstrói, ao mesmo tempo, tanto a imagem do monarca perfeito e infalível e da Wakanda como nação utópica e irreal onde todos vivem sempre felizes e contentes.


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Apresentado nesta perspectiva, como um rei relutante, com dúvidas, questões e frustrações, como um homem, e ainda assim um homem negro íntegro e ciente do seu dever como monarca, ganha o leitor logo de cara. O trabalho de Coates nesta estreia foi extremamente sensível e cuidadoso, e não apenas com o protagonista que dá título ao gibi, bem como às personagens de extrema importância na mitologia do Pantera: as Dora Milaje e aRainha-Mãe Ramonda.


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Mãe de sua irmã Shuri, Rainha Ramonda é, na verdade, madrasta de T’Challa, uma vez que sua mãe carnal faleceu no parto do filho; dessa forma, Ramonda é a única mãe o Rei conheceu, a pessoa na qual ele mais confia e para qual ele confessa as suas preocupações e sentimentos. Porém, muito além disso, Coates nos apresenta uma mulher, uma senhora ciente dos seus deveres como Rainha, por causa dos quais ela é obrigada a sacrificar um tanto da sua humanidade, e não deseja que o mesmo aconteça com o filho monarca em meio à crise na qual Wakanda se encontra. O diálogo entre a Rainha e uma das Dora Milaje é tocante.

Dora Milaje é o nome da guarda pessoal do Pantera Negra, e são todas mulheres, as melhores das melhores guerreiras recrutadas entre os vários povos que compõem a nação wakandana. Antes de Coates, as Dora Milaje eram mais adereços do que personagens - o maior drama que já as havia acometido foi uma delas ter se apaixonado por T’Challa. As Dora Milaje de Coates, já no primeiro número, uma Milaje chamada Aneka é presa pelo crime de executar a lei com suas próprias mãos, à revelia do Rei, e mais tarde é libertada, também à revelia da lei do Rei, pela Milaje Ayo, com a qual está romanticamente envolvida. E assim o casal se torna foragido, acentuando a crise wakandana.


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A crise instaurada em Wakanda é de ordem política e social e, acima de tudo, de ordem espiritual. Por seu poderio bélico e tecnológico, como uma das únicas nações africanas jamais invadida pelo homem branco, Wakanda sempre foi alvo de nações estrangeiras e até mesmo de invasões alienígenas. Na passagem de Hudlin, esse contexto sociopolítico ficou bem claro, no qual países europeus e o Estados Unidos conspiravam para assassinar T’Challa e tomar Wakanda para si, porém fracassaram. Nos anos mais recentes, Wakanda foi vítima de grandes desastres provenientes de grandes sagas Marvel dos últimos anos, tais como o tsunami causado por um enlouquecido Namor Fênix - e que culminou com o fim do casamento entre T’Challa e Ororo (Avengers vs X-Men, 2012), invasão alienígena da armada de Thanos (Infinity, 2013) e finalmente a sua total destruição nas mãos da Cabala - na qual Shuri, que era a Rainha e Pantera Negra na ocasião, foi dada como morta (Time Runs Out, 2015). A destruição da nação foi revertida graças ao esforço de T’Challa em reprogramar a própria realidade ao fim da mega-saga Secret Wars (2015), mas já era tarde demais: a descrença do povo em seu rei já estava instaurada.


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"O povo não está com ódio do seu rei. Eles estão envergonhados dele”.

 

E é cima dessa crise, desse caldeirão de sentimentos, desejos, amores e ambições, que Ta-Nehisi Coates trabalhará seu primeiro longo arco, “A Nation Under Our Feet”, o qual durará as 12 primeiras edições deste ano inteiro.

Devemos destacar também o excelente trabalho do ilustrador Stelfreeze que, assim como Coates, estudou e pesquisou com esmero toda a cosmologia que envolve o universo do Pantera Negra.


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A Wakanda de Stelfreeze é mais do um paraíso tecnológico. É uma maravilha afrofuturista que encanta, fascina e intriga ao mesmo tempo. Cada detalhe é minuciosamente trabalhado, desde os braceletes com aplicativos holográficos utilizados pela população passando pelo design bonito das máquinas até as naves de ficção científica que passeiam pelo céu - tudo isso com um toque de espiritualidade, com um arcabouço de ancestralidade, tudo como seria se um povo africano pudesse se desenvolver sem a desastrosa influência do homem branco. A grande nação wakandana é esplendidamente apresentada neste primeiro número, e talvez possamos dizer que é a representação definitiva de Wakanda.


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Black Panther é o gibi deste ano de 2016. Feito na medida para todos, mesmo que você não saiba coisa alguma do Universo Marvel. Se você nada sabe sobre o Pantera Negra e quer finalmente começar a acompanhar o personagem, ainda que eu também recomende a passagem do Hudlin, pode começar aqui, nesta obra de arte feita por Ta-Nehisi Coates e Brian Stelfreeze. Sem exagero, posso dizer que o escritor Coates tem tudo para fazer o T’Challa definitivo, aquele que entrará para a história como o melhor Pantera Negra de todos os tempos. Um gibi que tem tudo para ser uma das grandes obras afrofuturistas desta década.


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18/08/2016
Fábio Kabral

Fábio Kabral

Redator

Escritor caótico e menino do rio que vai conquistar o mundo com uma flecha só.