RITOS DE PASSAGEM (REVIEW)

RITOS DE PASSAGEM (REVIEW)

Há anos comenta-se quanto o mercado literário brasileiro cresceu graças à leitores de fantasia, que de Harry Potters e Crepúsculos da vida começaram a esbarrar em autores nacionais, que diferente dos acadêmicos lidos pra vestibular, escreviam sobre universos nada semelhantes ao nosso dia a dia. Tem anjos, dragões, bruxas, vampiros e cavaleiros medievais, tudo muito lindo, muito bacana e tal, mas pouco material remetendo à cultura de boa parteda população daqui, a população negra. Sim amgo leitor, você pode continuar curtindo Batalha do Apocalipse e Dragões de Éter da vida, mas também pode abrir a mente para a incrível e nova míriade de aventuras baseadas em mitos africanos, que no Brasil só começaram a ser contadas no livro Ritos de Passagem, do autor Fábrio Kabral.

 

E antes do review, uma breve observação: não sou versado em deuses africanos (que envolve uma centena de países), então nessa leitura nem sempre pude diferenciar o que é criação do autor e o que são mitos já estabelecidos. Então entrei em um mundo totalmente novo!


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A história começa épica, no início dos tempos, somos apresentados aos Filhos da Tempestade, quatro crianças poderosíssimas apesar de aparência frágil: Namutu, o Ilumitado, invocava trovoadas; Feti, a Escuridão, corrompia todas as almas com meras palavras; Gambalista, o Cagador de Ferro, controlava os poderosos elementos formadores da terra; e Kamutu, a Insana, queimava o próprio ar entre gargalhadas e labaredas inacreditáveis. A vida parece ser complicada nos primórdios não é, mas aqui é apenas a base do universo apresenado por Kabral, que vai dessa era fantástica para algo mais trivial e patético...

 

A vida lamentável de Numumba, um obeso garoto que sonhava em ser herói, mas mal conseguia sobreviver à um dia a dia regado a espancamentos por seus compatriotas da Serra do Falcão, e humilhações dentro da própria casa onde um pai inútil e uma mãe insensível lhe faziam pior ainda. De alento, Numumba tinha sua imaginação, o interesse por garotos e a amizade com Nolom, outro pivete da região que sofria das mesmas mazelas, mas que por dentro sentia-se intelectualmente superior à tudo. Claro que não era tão inteligente assim, pois não tinha conhecimento de outros dois personagens importantes para o destino da criação, a começar por Gulungo, escravo desde que se lembra mas com fome assassina de se livrar desse fardo; e Kinemara, que apesar de ser uma princesa entre os seus, parece nunca encontrar razaõ para manter-se viva. Os Ritos de Passagem entre a inôcencia e a independência do espírito, são o mote das páginas dessa ficção afro-fantástica.

 

Esses são os protagonistas que seguiremos para conhecer um pouco desse mundo criado pela Grande Mãe Serpente. Um lugar onde o inimaginável é apenas corriqueiro, onde sonhos podem ser alcançados por criaturas débeis, em um palco que não é justo com nenhum artista mas que as vezes (ou sempre) parece obedecer algum roteiro sinistro pensado por deuses antigos.


As mulembas nos protegem, pois nelas moram os ancestrais; elas são as oferendas que os pais de nossos pais plantaram para honrar os Senhores dos Ventos do Mundo Antigo, os Reis das Alturas; as árvores dos céus irradiam esse poder que nos portege dos espiritos maus lá de fora, e por isso consruímos nossos kimbos ao redor delas por isso riscamos no chão a linha, para marcar os limites dessa proteção. Vocês entenderam? Jamais devem ultrapassar sozinhos a linha! Espíritos maus aguardam lá fora...


Comprei esse livro sem saber exatamente o que encontraria, já que dentro da proposta do autor, bem, não tinha nenhum parâmetro para abraçar e dizer "humm, esse livro é tipo aquele lá e tal". Meu impeto foi de ver qualé dessa de fazer ficção com tema africano porque oras, já li de tudo por aí menos algo assim. E que felicidade em me ver pego pela trama depois de ler 3 ou 4 páginas desse épico! Sério, o começo do livro já mostra a que veio, somos apresentados para um novo universo de possibilidades em uma fábula que remonta à tempos imemoriais mas que é escrita em linguagem moderna. Esse aspecto contemporâneo fica evidente quando entramos diretamente na vida dos adolescentes que protagonizam a história, pois contem a acidez que ouvimos nos bate papos de qualquer roda de amigos, mas que mudam de intensidade dependendo do assunto. Em um trecho até tive dificulade de acompanhar o frenesi do texto de Fábio Kabral, mas quando busquei entender o que o personagem estava sentindo pensei: caramba, é assim que a mente de alguém revoltado e confuso deve ver o mundo. Um turbilhão de emoções e palavras se formando ao mesmo tempo, as vezes sem respiro, sem vírgula, ininterrupta e "seca" quando apenas o seu momento importa. Dentre muitas qualidades do livro, com certeza uma das maiores é nos fazer entrar na mente dos heróis através desse tipo de narrativa, não descrevendo o que estão pensando mas nos fazendo pensar com eles.

E claro que o principal chamariz do livro é o universo apresentado. Monstros gigantes, feras, magia, hérois que se teleportam, sugadores de almas, mulheres poderosas que comandam os elementos. Tudo em ritos de passagem é feito nos moldes das mais conhecidas aventuras da cultura pop, mas com o diferencial (finalmente) de ser criado sobre mitos africanos, um continente com mais histórias do que qualquer autor de fantasia pensou em contar. Talvez por isso até tenha sentido falta de um glossário, já que tudo foi tão novo para mim (e com certeza será para muitos) que dá vontade de saber mais e mais sobre as referências da obra. 

Se vocês gostam de ficção e fantasia e estava buscando algo com africanidade, é um livro indispensável em sua estante.


13/10/2016
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.