A Super Resenha Do Luke Cage Que Você Respeita

A Super Resenha Do Luke Cage Que Você Respeita

Não vamos falar as palavras clichês de sempre, aliás. Porque está tão em voga. Geral quer falar, mostrar o quanto está antenado e “consciente”. Movimentos sociais. Etc. Vamos lá. Mas sim, o cara representa pra caramba. Ele arrebenta! Eu tava com receio, achei que o Colter pudesse ramelar, mas o cara destruiu na interpretação e nos apresentou o Cage definitivo. Sem exagero. Ele é sarrador sem ser babaca. É másculo sem ser estereotipado. Macho sem ser vulgar. É o homem, de verdade. Eita. Aliás, ele e todo o elenco mandaram bem pra caramba. As interpretações como um todo estão ótimas de verdade, das mais sutis às mais exageradas e espalhafatosas. Todas combinaram com o tipo de personagem a que se propuseram e serviram muito bem à trama.

Destaque pra Misty, que merece série própria já. A mais poderosa do universo Marvel até o presente momento. Maravilhosa demais!


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Vou começar com o que vários de vocês já sabem e, se não sabem, se liguem então. Cage nasceu nos anos 70 porque, adivinha, falar dos melaninados tava na moda. Histórias bem estereotipadas e tal, na minha opinião. Era pra eu falar sério aqui, desculpe. As minhas impressões. Era os cara da ginga, do swing. Tiara, camisa amarela exibindo o peitoral. Ex-presidiário. Nossa, que novidade. Alguns falaram que é o primeiro herói com rosto africano dos quadrinhos. Não é. Certo, vamos nos concentrar.

Primeiro, muitos acharam a série o máximo porque… ah tá. Cultura n, sério? Me desculpem, li tanto umas críticas aí que… está bem.


Vamos às minhas impressões reais.

A série é ótima. É sensacional de verdade. Teve tudo que vários dos nossos gostariam de ver e mais. Não é perfeita, mas é verdadeiramente espetacular. Neste momento em que escrevo assisti somente uma vez, porque a correria tá uma loucura, mas eu gostei demais. Um homem melaninado à prova de balas é uma simbologia muito poderosa. Alguns falaram que a série é arrastada. Não concordo, acho que ficou na medida. Trata-se de um estilo próprio. É uma série policial, que por acaso há superpoderes no meio. Se os tirasse, seria igualmente poderosa, com as devidas adaptações. Mas procurem enxergar. A ficção é feita do absurdo, mas o absurdo existe apenas como metáforas de contos da realidade. E nesta série Luke Cage, a realidade é esfregada bem no meio da sua cara. Eu sei que vários de vocês gostam de gritar os clichês do momento e tudo mais. Outros de vocês detestam e ingenuamente acham que tem de ser tudo igual aos quadrinhos, fechando os olhos pro contexto em que foram criados. E toda essa ficção foi baseada numa tal realidade, não é isso, esta em que vivemos, que nos levou a fazer uma série dessas. Da qual todos estão falando. Falando só porque não estão acostumados. Não estão acostumadas a ver tantas pessoas com rosto africano em cena, e não escravizadas e subalternas, e sim em posições de liderança, destaque e poder.


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Por que isso acaba sempre virando uma questão? Que acontecimentos históricos nos levaram a isso?

Vão dizer que é o “mimimi” e “agora tudo é politicamente correto” e toda essa tolice que nunca compreendi bem. Outros vão falar que é a vitória da palavra r que eu me recuso a falar porque eu realmente abomino lugares comuns. Mas a real é que Luke Cage é uma série verdadeiramente necessária e estupidamente inspiradora. Os personagens são muito bem desenvolvidos, todos possuem os seus momentos, todos possuem um passado, todos gritam no presente e prometem muito para o futuro. Há uma reviravolta, há sim, que me surpreendeu e me entristeceu, mas que no fim valeu a pena. Porque o mundo é maluco e imprevisível, e a série reflete bem esse aspecto. Há muita ferocidade. Há magia sim. Há destruição, mortes, perversidades. Há amor, ah, como há amor.


Esta série Luke Cage é exatamente como é nos quadrinhos dos anos 70, só que atualizada para 2016. Certo, exatamente não é, porque é bem melhor. Em muitos sentidos. As referências estão lá, se você prestar a atenção. Nossa, todos falam de referências e referências como se fossem benditos manjadores de gibis. Mas vai além. As músicas. Todos elogiam a trilha sonora. E ela é espetacular sim. Pesque as músicas que são os títulos de cada episódio. Preste a atenção nas letras. Preste a atenção nos nomes de heróis e heroínas com rosto africano que são evocados em cada fala, cada esquina, cada grafite. Está tudo lá. Trata-se da realidade melaninada que extrapola e muito o mero universo dos quadrinhos. Eu disse, a ficção se baseia na realidade, e por meio da ficção criamos os mundos reais que desejamos. Eu vi Cidade de Deus no filme. Sim, o produtor Cheo Hodari Coker disse um monte de vezes que o nosso Cidade de Deus é o filme da vida dele. Sim, ele disse, você não sabia? Disse. E eu vi isso na série. Eu vi a Cidade de Deus estadunidense do século 21. Ficou lindo sim. Nada como um produtor melaninado também, não?

Eu estou esperando por essa série desde os meus 5 anos, ou seja, 30 anos atrás, que foi quando comecei a ler quadrinhos. Nessas três décadas de gibis, vi muita coisa, muita mesmo. Mas nunca vi nada como essa série Luke Cage. Sim, a espera valeu a pena.



13/10/2016
Fábio Kabral

Fábio Kabral

Redator

Escritor caótico e menino do rio que vai conquistar o mundo com uma flecha só.