Lothar, o novo Fantasma!

Lothar, o novo Fantasma!

O Fantasma é um dos meus heróis de infância, uma de suas revistas apareceu lá em casa nos anos 80 e acabei virando fã, talvez também por sempre vê-lo nos Trapalhões. Criado por Lee Falk em 1936, ele era fruto do conceito 'caucasiano cai acidentalmente em território de povo desconhecido e o domina', tema bem comum na literatura ocidental até meio do século XX. 

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Na plot, que se inicia em 1536, o marinheiro Christopher Walker teve o pai assassinado por piratas e jurou sobre seu crânio que lutaria contra o mal, tornando-se O Fantasma, também conhecido como "O Espírito que Anda". Ele vive na nação africana (fictícia) de Bangalla, onde comanda toda uma tribo guerreira e...enfim, a idéia que vale pra nós aqui é o fato do Fantasma ser um de título que se passa de pai para filho, tendo cada geração seu próprio mascarado. Na geração atual, por enquanto, o Fantasma é encarnado pelo guerreiro Lothar, que de ajudante do personagem Mandrake, torna-se o herói mais interessante da King Features, selo de quadrinhos atualmente publicado pela Dynamite Entertainment. 

 

O último Fantasma descendente de um Walker está morto, tombado em combate enquanto enfrentava uma ameaça alienígena junto de seus amigos Mandrake e Flash Gordon. Lothar, membro do mesmo grupo que auxiliava o Fantasma em Bangalla, toma para si a missão de encontrar o último familiar de Walker vivo para que o legado continue. Para realizar a tarefa, ele resolve momentaneamente usar o uniforme do Fantasma, até que encontre aquele destinado a substituí-lo.


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Acontence que não existem mais membros da família Walker vivos, o que encontra é a garota Jen Harris, reporter investigativa que obviamente já estava em altas confusões, tendo sido sequestrada por um grupo de mercenários. Com o apoio tático de Guran, Lothar aos trancos e barrancos consegue resgatá-la, porém ela não aceito o seu legado, o que faz o nosso herói (em negrito) continuar com o traje de Fantasma até que a garota o aceite, ou que localizem outro descentente. No final desta mini em 4 edições (lançada em 2014), quase podemos aceitar o roteiro de Brian Clevinger como um revisionismo histórico, pois de certa forma Lothar tomara para si o protagonismo há muito merecido, inclusive colocando a descendente do Fantasma original como sua sidekick!

 

Originalmente, Lothar apareceu nas tiras do Mandrake dentro do esteriótipo do 'bom negro'. Apesar de ser um princípe em sua terra, abdicou de seu próprio legado para servir o mago, tendo nas tiras diárias o papel de ser o ajudante forte e de fala engraçada. Uma alusão indireta (ou bem direta) ao neocolonialismo na literatura, em que povos africanos sempre deveriam se submeter à nações 'mais evoluídas'. Com o tempo o próprio autor da tira foi consertando essa burrada, tornando Lothar um personagem mais articulado e com papel mais relevante, indo de ajudante forte e burro a parceiro do herói 

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Criado em 1934, se tivesse sido bem escrito desde o começo, seria o primeiro personagem negro de destaque nos quadrinhos americanos. Na verdade ele é, mas devido à esse background racista, prefiro ignorar os primeiros anos de Lothar. E longa via ao novo Fantasma!



14/10/2016
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.