Review: Bem Vindo à Marly-Goumont

Review: Bem Vindo à Marly-Goumont

Se atualmente não fosse um cara mais família, certeza que passaria direto por essa produção, e ela acerta em pontos demais para não dar essa dica para vocês. Bem Vindo a Marly-Gomont é uma história verídica de um médico recém formado (interpretado por Marc Zinga) que com sua família tenta sobreviver em um outra localidade. Dadas as devidas proporções, quem não tem história de vida parecida?

Seyolo Zantoko é um cidadão de Kinshasa, no Congo, que conseguiu se formar em medicina na França. De cara vemos que ele possui uma ótima proposta de trabalho em seu país, mas por questões morais opta aceita trabalhar em um cidade interiorana próxima à Paris, levando sua família consigo. A pequena Marly-Gomont é um lugar bucólico, poucos habitantes que vivem da agricultura e tem pouco contato com o mundo externo. Apesar da década de 70 deixar muita gente propícia à apreciarem o futebol pela tv.



As primeiras cenas no vilarejo são de estranhamento, primeiro dos moradores que não conheciam ou nunca viram pessoas negras, e também da própria família Zantoko em um estado bem diferente de seu acalorado e colorido Congo. Tentando ser aceito, o agora doutor muitas vezes ignora e proíbe que os costumes de seu povo sejam praticados na cidade, como a língua kituba, esportes e religiosidade, que apesar de serem cristãos, sua forma de louvar a Deus é nada soturna comparada a missas em latim que só o padre manifesta sua voz. Essas pequenas diferenças culturais geram os momentos mais engraçados do filme, que aliás, eu havia esquecido de comentar que é uma comédia dramática. Então saiba que terão muitos percalços, mas o final será feliz. Mas é daqueles casos que a jornada é o mais importante, o crescimento do protagonista em meio as adversidades da vida adulta gera identificação imediata, pra nós ainda mais por ver um negro tentando sobreviver no mundo branco. 

Existe uma frase que o Dr. Zantoko diz para os filhos, que conversa demais com a vida de cada um: "filhos, pra serem alguém na vida precisam estudar. E estudar mais ainda porque somos negros". Eles questionam o motivo de terem que se esforçar mais que os outros, o pai não consegue formular resposta.



Filmes-família sobre preconceito são chatos, óbvios. A jornada de superação dos heróis costuma ser ligada a aceitação própria e dos terceiros, que precisam que a vida por meio de exemplos comprove que os "de cor diferente" são iguais em tudo o que importa. Existem poucas formas das narrativas mais simples fugirem disso, mas quando penso no mundo real, bem, infelizmente acaba acontecendo como nesse filme mesmo. E mérito dele em mostrar isso sem ser muito piegas, apesar daquele tom meio fábula típico de filmes para Natal.

Então se estiver fim de semana marcando bobeira na dona Netflix, veja lá esse ótimo filme acompanhado de seus filhos ou parentes mais velhos, com certeza será uma experiência muito bacana.

Título: Bienvenua à Marly-Gomont
Ano: 2016
Direção: Julien Rambaldi
Elenco: Marc Zinga, Médina Siarra, Aissa Maiga, Bayron Lebli, Jean-Benoit Ugeux
Duração: 96 minutos


07/11/2016
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.