Quase não existem super-heróis negros...e a culpa é sua!

Quase não existem super-heróis negros...e a culpa é sua!

Desculpem o título polêmico, mas muito se cobra representatividade na cultura pop e pouco se consome disso, e não por falta de opção. No âmbito nerd, pegue podcasts, youtubers, literatura, quadrinhos, quanto disso é produzido por negros e voltado pra fortalecer nossa presença, e você não conhece? Usando as histórias em quadrinhos e o cinema que veio disso como exemplo, não tão recentemente vemos a força de personagens como Pantera Negra e Luke Cage ser sentida pela massa e entendida como “finalmente heróis negros nos representando, aí meu Deus adoro a Marvel por isso”. Ok, pode adorar, eu também gosto, mas esses heróis estão por aí a décadas e só vieram à tona por questões de mercado, afinal estamos em uma era que não pode existir case sem representatividade, é uma questão de ter mais para vender para tal seguimento do que se importar com aquele público. E na contramão dos grandes conglomerados (Disney, Warner, Fox, Globo...) tem MUITA gente correndo por fora, que com pouca grana para divulgação, talvez nunca chegue ao público que merece, mesmo apresentando material de qualidade.




Qualquer publicação funciona assim, se não faz sucesso é cancelada, se ninguém comenta, o autor não tem feedback para melhorar, e se o cara for independente, logo desiste ou parte pra outra. Noto uma certa má vontade no público “afro-nerd” em ao menos tentar abraçar o novo, é muito fácil apoiar qualquer projeto dando curtida em redes sociais e 10 minutos depois continuar reclamando que “não tem super-herói negro para me representar”, continuando nos poucos que conhece sendo que a maioria deles (eu diria todos) foram criados por brancos e só recentemente foram apropriados pela comunidade preta. Sim, muito do que a gente veste a camisa comprada no shopping foi criado com o reflexo mais estereotipado possível, o herói que era criminoso, o regente africano, o bad boy do gueto, a negra punk (que nem é punk e também era ladra) maravilhosa, pois saíram da cabeça de quem via o nosso universo pela janela do carro ou pelos noticiários tendenciosos da vida. Hoje muito adulto que cresceu lendo isso começou a produzir usando as próprias referências, fazendo aqui e lá fora muita coisa que, bem, pode até se tornar o herói preferido de alguém. Talvez a falta de aprofundamento em novos personagens seja parte do medo do desconhecido somado à quantidade exorbitante de conteúdo nas timelines, fazendo a mente ir para o que é sabido como confortável, mantendo o escopo pequeno e sem querer justificando nossas próprias reclamações da falta de representação.


Certamente já ouviram a máxima “é nóis por nóis”, muitos mercados distintos crescem dessa forma. O próprio quadrinho nacional praticamente se reinventou nessa geração, com gente tentando encontrar uma linguagem própria e consumindo material de seus semelhantes. Sim, acaba sendo uma panelinha com muito título pra meia dúzia entender, mas é um começo. E os novos super-heróis negros também precisam desse começo, inclusive muitos estão se dando bem fugindo do visual pré-estabelecido nas publicações americanas, afinal pra ser super ou apenas o herói do dia, não precisa de collant e identidade secreta. Não que a roda precise ser reinventada, mas de algemas (limitações) nosso povo já esteve cheio!




Proponho um exercício, na verdade, dois: pense tudo que consumiu de nerd no último ano, e separe disso o quanto já era de material fortemente estabelecido. Após isso “dê um google” ou mesmo navegue um pouco por este site, verá o que foi produzido por e para o público negro nos dois anos anteriores. Obviamente ninguém é obrigado a gostar de tudo, e admito que tem muito produto de baixa qualidade...assim como tem em qualquer grande mídia! Vai dizer que tudo que a Marvel publica é bom? Tento mensalmente acompanhar o máximo de material que o bolso e o tempo permitem, me é claro que a maioria da produção das grandes editoras é ruim, e mesmo assim é lida, reclamações são jogadas ao vento, tretas em redes sociais, e mesmo assim são lidos. Se é tão fácil dar chance à porcarias que amanhã mal servirão como papel higiênico, porque não tentar logo algo novo, e preto? Poderá se surpreender.


Um aviso: não porque o protagonista é negro, que as histórias precisam remeter ao continente africano e sua quase infinita gama cultural ancestral. Na verdade, vários autores conseguiram misturar esse legado à um caldeirão pop, tentando gerar uma identidade própria. Os que conseguiram, já estão colhendo excelentes louros de seu trabalho duro.


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Como sei que a crise tá braba e, afinal, só os velhacos como eu vão atrás de publicações em papel, se liguem nessas dicas de webcomics gratuitas, pra todos os gostos:


Valorous Tales - um espadachim é amaldiçoado por uma bruxa e torna-se criança, agora precisa caça-la e tentar reverter o feitiço antes que seja definitivo. É um gibi de fantasia medieval, com uma pegada que lembra Zelda e Dragon Ball.


The Immortal Nadia Greene - com um taco de baseball, Nadia enfrenta deuses da morte de diversas culturas, para "retardar" seu próprio destino e de outros. Roteiro e arte de Jamal Campbell, quadrinista com muitos trabalhos recentes para Marvel e DC.


Herói -  Personagem da galera do site (brasileiro) Afrodinamic, atua em escala global enfrentando todo tipo de ameaças. O autor tem uma arte bem característica, um material que mescla de forma interessantíssima um desenho mais oldschool com uma estilização perfeita para web.


Vibe - Aqui as emoções negativas, as Bad Vibes, se transformam em monstros gigantes que só podem ser combatidas por um Wich Doctor, cargo inventado (até onde li) pelo protagonista, Baron Bones. Todo o design e roteiro é perfeito para um desenho animado, e não sei por que ainda não pintou nas telas.


Agents of The Realm - heroínas mágicas que além de enfrentar vilões de outra dimensão, tem que se preocupar com as dificuldades da transição entre adolescência e vida adulta.


23/01/2017
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.