Pop África

Pop África

A verdade é que a maior parte do tempo tratamos a África como uma unidade, de forma estereotipada e de ideias pré-concebidas, quando estamos falando de um continente composto por 52 países com uma pluralidade cultural ímpar, religiões e etnias diversas. Ainda cultivamos a ideia de uma África misteriosa, exótica, paradisíaca, quase onírica, que por anos nos tem sido vendida através de Allan Quaterman, Fantasma, Mandrake e Indiana Jones. Com isso ignoramos uma produção efervescente de cultura pop de alta qualidade e muitas vezes produzida às duras custas dentro de regimes totalitários e censura de imprensa.

As histórias em Quadrinhos representam um importante veículo de informação servindo como uma espécie de ponto de transição entre a oralidade e a escrita, a tradição e a modernidade. A vida de Nelson Mandela foi retratada em HQ na África do sul. Na Etiópia, HQs são usadas para alertar os soldados sobre os perigos da AIDS. Diversas associações, como a AfriBD  e a World Comix  vem desempenhando um papel importantíssimo no incentivo à leitura e à produção de quadrinhos africanos que refletem muito da realidade política do continente.

Nollywood, o Cinema nigeriano, é o terceiro maior polo de produção em cinema no mundo, e lançou em 2014 o primeiro filme de super-heróis africanos, produzido através de crowdfounding e vaquinhas virtuais, dirigido por Nosa Igbinedion, Oya – Rise of the Superorisha” (em tradução livre, Oya – a ascensão do Super Orisha) Conta a história de Oya, a única deusa Orixá que ainda mantém vinculo com os humanos, cuja missão é encontrar uma garota capaz de abrir os portões entre humanos e deuses a fim de evitar o apocalipse. É um filme produzido na África e com uma heroína empoderada! Em 2015, também foi lançada Jongo – a primeira série de TV mainstream de super-heróis e afrocentrada. Ambientada em Johannesburgo, a série mescla ficção cientifica com questões sociais e políticas e a primeira temporada conta com 8 episódios. Apesar de ser um sucesso, infelizmente a exibição da série ficou limitada aos países africanos e alguns poucos teasers no Youtube.

Também da Nigéria a Start up Comic Republic, fundada em 2013, vem ganhando o mundo produzindo e distribuindo gratuitamente em seu site HQs de Super-heróis negros ambientadas na África. Ultrapassando os 80 mil downloads ao redor do mundo e com arte e roteiros de excelente qualidade, os “Vingadores Africanos” como vêm sendo chamados por alguns fãs, formam um grupo bem diverso composto por super-soldados, tecnomagos e super-humanos à la Superman. Quatro dos nove heróis do universo criado pela Comic Republic são mulheres.

A produção de cultura pop na África está em alta. Mesmo que ainda produzidas com baixo custo, vêm se consolidando e crescendo. Super-heróis são imensamente populares e essa indústria está indo na contramão e buscando representatividade, valorizando elementos culturais e mitológicos africanos e com personagens que compartilhem das mesmas experiências e ambientes de seu público. E é pensando nesse mercado em ascensão, formado não só por africanos, mas por negros que vêm buscando uma identificação e representatividade, que a Marvel vem dando largos passos nesses quesitos como o lançamento de Moon Girl, Miles Morales como Homem-Aranha e o Pantera Negra. Este, criado em 1966 e considerado o primeiro herói negro, cinco décadas depois da sua criação vem ganhando destaque, culminando no filme previsto para 2018.

Por muito tempo se acreditou que não existia um mercado de HQ com personagens negros e voltado para o público negro, mas hoje o mercado de cultura pop africano movimenta U$ 935 milhões, sendo boa parte desse valor vindo de projetos financiados em plataformas de crowdfounding, como por exemplo a HQ E.X.O – The legend of Wale Willian – de Roye Okupe. Esta trilogia é ambientada numa África futurista e tecnológica, onde um garoto nigeriano investiga o desaparecimento de seu pai, um importante inventor, em um país com lideres corruptos e dotados de exoesqueletos robóticos. A parte I atingiu a meta no kickstarted em menos de dois meses, a parte II ultrapassou a meta em 24h. Tudo isso para mostrar que o problema até hoje foi um marketing mal feito associado ao desinteresse dos grandes players como Marvel e DC e não a um mercado ruim.

Com raras exceções, como a premiada série Aya de Yopougon, da escritora Marguerite Abouet da Costa do Marfim, a produção africana não vem despertando o interesse das editoras brasileiras, mas, acredito que isso deva mudar nos próximos anos. Segundo Adilifu Nama, autor de Superblack American Pop Culture and Black Superheroes, estamos em uma espécie de “renascença” da cultura pop, em especial da cultura pop afrocentrada, e que talvez em alguns anos, o continente africano esteja para as HQ’s, assim como o mangá está para o Japão.

*Publicado originalmente em Minasnerd*


29/03/2017
Kelly Cristina

Kelly Cristina

Redatora

"Nunca acredite no contador de histórias, apenas na história”