Pantera Negra: Wakanda vira uma república!

Pantera Negra: Wakanda vira uma república!

O início, o meio e a inesperada conclusão do arco fantástico do gibi de Ta-Nehisi Coates


O impensável aconteceu: Wakanda virou uma república. Mas hein?

É isso mesmo que você leu: a ancestral e monárquica Wakanda acaba de se tornar uma espécie de governo democrático, uma república, com eleição direta de representantes e tudo mais. Calma, a Família Real ainda está lá! Ainda representa a nação; apenas não centralizam mais o poder.

Mas como isso foi acontecer?

Vamos por partes.


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1 - O começo

Como não saiu ainda nem o gibi #1 dessa nova fase aqui no Brasil, vamos explicar tudo desde o início.

Logo na primeira página da primeira edição, que saiu em março de 2016 lá nos Estados Unidos, há um recap que mostra o quanto o Rei T’Challa estava tretado aos olhos do seu povo. Acontece que meses antes, o Pantera Negra foi um dos protagonistas de grandes acontecimentos  de Guerras Secretas, que determinaram o fim e o renascimento do universo.

É tudo extenso e complexo demais até para se resumir aqui, então vamos dizer simplesmente que T’Challa esteve na linha de frente, fosse no combate, fosse no laboratório criando novas soluções tecnológicas, no espaço sideral e em outras dimensões fora do planeta… e isso trouxe consequências extremas para Wakanda, tais como inundações de seres cósmicos e invasões de exércitos alienígenas. Dessa forma, o povo não apenas se viu abandonado por seu Rei, bem como à mercê de eventos catastróficos sem sentido.

Ah sim: sua irmã, a Rainha Shuri, que era a governante e a Pantera Negra no lugar de T’Challa, acabou sendo morta durante uma das invasões… mas é um pouco mais complicado que isso e será explicado mais adiante (ou não).


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Dessa forma, o arco de Ta-Nehisi Coates começa com um T’Challa bem encrencado, conforme já resenhamos aqui. O que chama a atenção em especial daqui por diante são duas coisas: 1) ao contrário do habitual, com arcos de histórias durando de três a seis edições, este primeiro arco de Coates durou doze edições; 2) a extrema qualidade que verificamos na edição 1 se manteve constante em todas as demais onze edições.


2 - O meio

Aconteceram um monte de coisas. Todos os atores principais que apareceram na primeira edição seguraram seu protagonismo - ou antagonismo no caso de alguns - até o final do arco. Como é coisa demais, vou dar aquela resumida:


T’Challa usou de todos os meios necessários para deter os revoltosos, incluindo uma reunião sinistra com os maiores ditadores e déspotas do mundo para aprender táticas de contenção de rebeldes;


Em determinado momento, T’Challa se viu encurralado de tal forma que teve de apelar para a ajuda de seus maiores amigos super-heróis: Luke Cage, Misty Knight, Dobra e Tempestade - The Crew!


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A Rainha-Mãe Ramonda que teve atuação forte desde o início acabou saindo de cena cedo, quando sofreu um atentado a bomba e quase morreu, permanecendo em coma na metade final do arco; porém, graças a isso…


Shuri retornou dos mortos, guiada por um ancestral com a aparência de sua mãe; na verdade, ela não estava exatamente morta, e sim presa num estado de não-vida; ela foi guiada por esse ancestral numa jornada pelo mundo dos mitos e lendas, o que nos proporcionou uma das passagens mais bonitas e poéticas de todo esse arco escrito por Ta-Nehisi Coates;


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Shuri retorna toda revestida de poderes sobrenaturais assombrosos e uma sabedoria ancestral, bem diferente da menina voluntariosa e inconsequente que havia se tornado Rainha; essa nova natureza da Shuri lembra muito a de heróis e heroínas dos mitos africanos tradicionais, nos quais a magia e a maravilha permeiam sem necessidade de serem explicadas pela lógica;


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As Dora Milaje rebeldes Ayo e Aneka mantêm o protagonismo de sua rebelião por todo o arco, libertando as mulheres do subjugo de homens cruéis que aproveitavam a instabilidade do reino e a ausência do Rei para cometer atrocidades; foi apresentada a jornada do casal, da indignação firme de sua revolta ao questionamento final de seus atos; no fim, escolheram cessar com a rebelião, e não foram exatamente perdoadas pela Família Real, mas também não foram banidas, e sim se tornaram uma força importante na nova república;


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Tetu e Zenzi, os antagonistas, acabaram brilhando menos e quase passaram despercebidos; apesar de não serem personagens ruins como um todo, acabaram ofuscados pela força e carisma intensos dos protagonistas e não se mostraram uma ameaça tangível e terrível como por exemplo o poderoso - e infelizmente falecido - Erik Killmonger (que graças aos ancestrais estará presente no filme do Pantera); ainda assim, foram as ações dos antagonistas a principal ameaça ao reinado de Wakanda.


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Pronto, um resuminho básico. Mas aconselho a ler o arco todo assim que sair no Brasil - que já era pra ter saído, aliás, pelo menos as primeiras edições.


3 - O fim

Para ser sincero, o fim não foi tão vistoso e magnífico quanto o início e meio do arco. Mas ainda assim foi um final decente. Com muita perspicácia, T’Challa retomou o apoio daqueles que estavam descontentes, como por exemplo Ayo e Aneka, mas a virada ocorreu mesmo quando o Rei conseguiu convencer o venerável Changamire, o filósofo dissidente que involuntariamente inspirou a rebelião comandada por Tetu e Zenzi. O ancião Changamire ansiava por uma revolução em Wakanda, mas não de forma violenta e arbitrária como a executada por Tetu; dessa forma, ainda que discordando de T’Challa em vários ponto, no âmago o Rei e o ancião queriam o mesmo: a felicidade e crescimento da nação. Dessa forma, o discurso do filósofo ancião foi decisivo para virar os rumos da guerra.


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Já desprovido de aliados, restou a Tetu então partir para a ofensiva final, forçando seus soldados com os poderes empáticos de Zenzi. Mas foram derrotados por T’Challa e sua armada de ancestrais, os governantes anteriores de Wakanda. Tetu foi preso, mas Zenzi conseguiu escapar. A luta final em si não foi muito impressionante, mas terminou sem muito derramamento de sangue, bem como queriam T’Challa e Changamire.


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4 - Epílogo

E foi então que todos os cabeças da história - T’Challa, Shuri, Ayo, Aneka, Changamire e outros - se reuniram para conversar e determinar o futuro do reino. E é aqui que aparece novamente a narrativa delicada e perspicaz de Ta-Nehisi Coates, mostrando que todos estavam, de certo modo, corretos e errados ao mesmo tempo, cada um dentro de suas convicções buscando fazer o que achavam ser o melhor; só que, no fim, todos queriam a mesma coisa.


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Os diálogos da edição #12, a última desse longo arco, são realmente muito bons e vale a pena ler quando sair no Brasil. Na verdade, vale a pena ler tudo mesmo.

No fim, todos concordaram que não tinha como seguir adiante do jeito como as coisas estavam, e foi aí que começou a nascer algo inédito em Wakanda: uma república! Ainda não foram acertadas as bases, mas está certo que Wakanda não mais será governada com o poder centralizado em uma única pessoa, e sim o governo será distribuído a representantes eleitos pelo povo. Calma, a Família Real ainda persiste; a Família Real seguirá representando a nação mas não representará a totalidade de seu poder.

Dessa forma, T’Challa finalmente declarou a sua liberdade e foi se encontrar com o amor da sua vida.


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O que eu acho? O que eu disse nesse texto inteiro: eu GOSTEI MUITO e desejo que todos adquiram e leiam esse clássico contemporâneo da ficção heroica com rosto africano.



06/04/2017
Fábio Kabral

Fábio Kabral

Redator

Escritor caótico e menino do rio que vai conquistar o mundo com uma flecha só.