“Dear White People” e a diversidade de pele negra

“Dear White People” e a diversidade de pele negra

Multiplicidade de visões, sentimentos e motivações — a série é sobre você, pessoa negra

(Não há spoiler algum aqui)

Link do texto original

Caras pessoas negras,

Nós somos muitos. Somos vários, somos múltiplos. Somos de muitas origens, muitas criações. Muitos estilos. Nós acessamos informações diferentes. Nós crescemos em ambientes diferentes. Tivemos educação diferentes. Aprendizados diferentes.

Acima de tudo, somos pessoas diferentes.

A diferença entre nós, digo. Como seres humanos.

Nós somos, eu sou; eu sou, nós somos.

“Dear White People”.

Eu sou a série. Que, apesar do nome, é sobre nós. Somente sobre nós e sobre o mundo que nos rodeia. Então, é para nós que eu falo. Para mim.

Eu sou a série. Que era filme. Foi um filme que nos pressionou muito. Nos atingiu com uma pegada firme, sem vergonha, sem medo. Um filme que nos enxergou por dentro, e nos revirou do avesso.

A série consegue ir além disso.

A série é sobre você, a série é sobre mim. São 10 capítulos, cada um com mais ou menos meia hora. Cada um dos capítulos é centrado num personagem. E cada um desses personagens, pessoas pretas tão diferentes entre si, com visões tão diferentes e objetivos e motivações tão diversos, cada um deles é cada um de nós.

Nós não somos rótulos. Nós somos seres humanos.

A série é como se fosse uma continuação do filme. Embora não seja. É como se fosse uma versão alternativa. Que vai além. São os desdobramentos da conclusão do filme. É uma história que se aprofunda. Porque nós temos muitas histórias para contar.

Samantha White (Logan Browning) é meramente a revolucionária? Há mais por detrás. Quais contradições ela tem de encarar? O que a leva a fazer o que faz? E os seus sentimentos? Você ousa julgar o que ela sente?

Lionel Higgins (DeRon Horton) é só o repórter nerd e tímido?Há questões sobre a sua sexualidade? Isso muda ou define o que ele é? O que há além disso? O que ele apresenta no seu desenvolvimento e crescimento?

Troy Fairbanks (Brandon P. Bell) é só um fantoche do papai? É só o menino preto rico que adoram odiar? É realmente o famoso “capitão do mato”? O que há além disso? Quais suas motivações, quais seus pensamentos a respeito? Quem ele realmente é?

Reggie Green (Marque Richardson) é só o militante raivoso? É somente o agitador fanático? É apenas um bruto? Quais sentimentos brotam ali? Quantas lágrimas estão enterradas ali? Quais os seus pensamentos?

Coco Conners (Antoinette Robertson) é realmente uma patricinha? É a menina preta sem “consciência”? Será? O que a pele mais escura influiu na sua vivência? O que a sua vivência tem a nos dizer sobre a sua personalidade hoje? O que ela, por sua pele mais escura, experimentou que outros não experimentaram?

O diretor Justin Simien, que também foi o diretor e idealizador do filme de 2014, foi realmente brilhante aqui. Brilhante.

Há mais. Há muito mais. Porque a série não se contém.

Há piadas. Muitas. Você ri muito. Eu gargalhei várias vezes. Alto.

Há referências. Há verdades. Há fatos indigestos que você preferiria não ouvir.

Há tensão. Há uma real tensão. Na qual você segura a respiração. Aquela tensão que eu já experimentei. Na vida real. A lembrança daquele momento em que a sua vida está na mira de um cano frio. Tensão. Choro. Lembranças de um momento violento.

A série não é sobre tragédias. A série é sobre você, pessoa de pele negra — seja a sua pele clara ou escura. A série é sobre as suas contradições, os seus sentimentos, as suas esperanças ocultas, os seus desejos enterrados, as suas vontades censuradas, os seus amores, as suas alegrias, os seus questionamentos. A série te revira do avesso para que você mostre para a luz o que talvez você tenha enterrado no fundo da alma.

E é uma série muito gostosa de assistir! Apesar de tudo, tranquila e divertida.

Divergências? “Racismo reverso”? Boicote à Netflix? Sinceramente, nada disso me interessa. Ninguém tem que explicar nada. É só assistir. Me recuso a tentar justificar qualquer coisa nesse sentido.

Mas fiquem tranquilos. Porque, apesar do nome, a série não é nada sobre pessoas caucasianas. “Dear White People”, apesar do nome, é uma série sobre eu e você, sobre todos nós, pessoas de pele negra — seja essa pele clara ou escura.

PS: A paródia da série Scandal que aparece. Eu ri muito!


01/05/2017
Fábio Kabral

Fábio Kabral

Redator

Escritor caótico e menino do rio que vai conquistar o mundo com uma flecha só.