O que aprendemos com Nina B'onina Brown

O que aprendemos com Nina B'onina Brown

ATENÇÃO: CONTÉM MUITOS SPOILERS


A nona temporada de RuPaul's Drag Race está chegando ao fim e não dá para negar que, apesar de não ser top 5, Nina B’onina Brown roubou a cena durante toda a temporada (na minha opinião, o storyline dessa season girou em torno dela e de Valentina). A depressão e o struggle de Nina durante os 10 episódios que participou foram foco de discussão e atenção - e, infelizmente, foco do racismo enraizado na nossa sociedade.


Vamos contextualizar: Nina tem 34 anos, ou seja, já é considerada velha. Mora com a família e tem uma profissão mal compreendida. As escolhas estéticas dela (que, como ela já explicou, passam pela situação financeira, já que ela optou por trabalhar com materiais inusitados e pintura facial por não ter grana pra comprar perucas e maquiagens caríssimas) são questionadas pelas drags de sua cidade natal, o que faz com que ela esteja sempre à margem, não sendo convidada para eventos e apresentações. Esse cenário todo, somado ao fato de Pierre (alter-ego de Nina) ser um homem negro, geram a confusão mental que acompanhamos no programa. Uma pessoa insegura, que não confia na opinião alheia, com mania persecutória e um pessimismo latente. Logo no primeiro episódio ela confessa: Drag Race é sua última tentativa de conseguir algum respeito por seu trabalho.


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Nina B’onina Bonana Fofana Osama BinLaden Brown boom boom boom


A trajetória de Nina não é incomum, especialmente para pessoas negras. Somos, o tempo inteiro, bombardeados pela sensação de não sermos bons o suficiente, não sermos bonitos o suficiente, não sermos qualificados o suficiente - mesmo quando somos, ouvimos o contrário. Vem, na hora, o estereótipo do negro vitimista e apelão - afinal, selvagens que somos, não podemos ouvir uma crítica que já fazemos um barraco.


A presença de Shea Coulée, sempre ao lado da Nina, apoiando a colega e tentando mostrar que, sim, ela é boa e merece estar ali, nos aponta a importância de criar uma rede de proteção. Precisamos estar juntos para nos fortalecer e crescermos para enfrentar tudo o que vem na nossa direção. Infelizmente, Nina não conseguiu seguir os conselhos da amiga e acabou sucumbindo em suas próprias frustrações. É difícil, quando estamos acostumados a só tomar porrada, acreditar quando alguém nos diz que somos bons. E Nina é mais que boa, é ótima, mas não confia em si mesma. (E foi bem triste ver Nina e Shea duelando entre si, confesso)


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Shea dando a palavra: se eu ouvir você sendo negativa de novo, vadia, eu te arrebento!


Chega um ponto, na competição, em que as outras drags meio que se cansam de tentar ajudar - Nina que se vire por conta própria. Entendo, super. Por dois motivos: é difícil tentar ajudar alguém que não consegue perceber que precisa de ajuda; e, afinal de contas, é uma competição e ninguém quer que o concorrente ganhe.


Nina Bonina Brown é a personificação de todos os medos e inseguranças que toda pessoa negra passa na vida. Shea Coulée, apesar de mais jovem, está num ponto de maturidade maior e compreende que, para sobreviver neste mundo é preciso mais do que play, é preciso slay - não a toa, é forte concorrente a levar a coroa pra casa neste ano.


Apesar de ser maravilhosa, Shea certamente vai carregar a chancela de "aquela que pegou a coroa que seria de Valentina", assim como Tyra Sanchez vem sendo acusada, eternamente, de "aquela que roubou a coroa de Raven". Eu nem gosto da Tyra, mas não há o que negar: ela merecia a coroa. O vídeo "Why Tyra Beat Raven", um compilado de comparações entre as duas, mostra o óbvio: a drag negra é bastante superior à concorrente. Mas ainda assim, o público não consegue aceitar sua vitória, ainda hoje, sete anos depois - e dá-lhe comentários racistas nas redes sociais da segunda winner.


O problema, tanto no caso Nina, quanto na possível vitória de Shea, quanto na vitória de Tyra sete anos atrás, é o mesmo: a pessoa negra não é boa o suficiente (no ano passado, Bob The Drag Queen também foi criticada por ganhar o programa).


Mas como Drag Race, pra mim, é mais do que um talent show, é uma aula de vida, a lição que fica desses episódios todos é: precisamos nos fortalecer, entender quem está do nosso lado e quem está disposto a nos ajudar quando precisamos. Criar uma rede de proteção precisa fazer parte do nosso senso de sobrevivência. Precisamos estar atentos, para que não nos tornemos nossos próprios inimigos, como a própria Nina pontuou quando da sua eliminação.


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Me processa, fofa


02/06/2017
Ricardo Laranja Lima

Ricardo Laranja Lima

Redator

Um ser humano fantástico com poderes titânicos.