Review: Pantera Negra - O Homem Sem Medo

Review: Pantera Negra - O Homem Sem Medo

Após derrotar o Doutor de Destino e destruir as reservas de vibranium de Wakanda, T’Challa não sente-se digno do título de Pantera Negra. Em uma jornada de descobrimento, o herói resolve aceitar o pedido do amigo Matt Murdock (Demolidor) para cuidar da Cozinha do Inferno em sua ausência, já que o vigilante tinha suas próprias crises internas para resolver. E tem início um dos arcos mais equivocados (apesar de muito bem desenhado) do Pantera Negra: O Homem Sem Medo.



Recomeço é um tema corriqueiro na vida útil de um super-herói americano, seja após um grande arco cheio de reviravoltas ou apenas mudança na equipe criativa do título do personagem. O Pantera Negra já havia tido sua cota nesse esquema, mas nos roteiros de David Liss (um romancista reconhecido na gringa pelos seus “romances urbanos históricos”), agora o antigo rei africano se colocaria no papel de um herói mascarado comum, com poucos recursos tecnológicos em uma incessante luta contra o crime local. Para tanto, T’Challa cria a identidade de Mr.Okonkwo, imigrante do Congo e dono de um restaurante local, onde ficaria próximo das pessoas comuns e assim saberia mais fácil de suas necessidades e dos problemas do bairro. Na primeira fase desse arco, vemos o herói agindo quase como um herói novato, enfrentando uma serial killer é um mafioso romeno chamado de Vlad - O empalador. A narrativa lembra tanto um certo homem morcego que até um comissário de polícia bigodudo aparece na trama, naquele tipo de aliança em que o vigilante usa o agente da lei para prender oficialmente os vilões que captura. Os clichês são tão óbvios que acabei terminando esse arco apenas pela excelente narrativa gráfica do desenhista. Após derrotar Vlad, o Pantera também enfrenta Kraven, o Caçador, e na sequência tem um arco ambientado dentro da saga Fear Itself (no Brasil “A Essência do Medo”) em que enfrenta uma nova versão do Monge do Ódio e conclui a fase Homem Sem Medo do Pantera Negra, embora a vida de T’Challa ainda permanecesse ligada a Cozinha do Inferno no arco seguinte O Homem Mais Perigoso Vivo, onde vemos nosso herói de rosto africano enfrentando os ninjas do Tentáculo, numa disputa de forças com Wilson Fisk, que havia se tornado o líder da seita. Nessas edições, temos a participação de Luke Cage e Falcão como coadjuvantes, em uma operação para salvar a própria Wakanda de ser dominada economicamente pelo Rei do Crime.


Apesar dos percalços, a conclusão da história cumpre o papel de trazer o personagem de volta a sua antiga grandeza, de líder de uma nação, mesmo não ostentando mais o título de Pantera Negra.



Confesso que no início a leitura foi dura. A proposta já começou meio errada, pois a ideia dos editores foi de mudar o herói mas manter a numeração do título, coisa que a Marvel já havia feito algumas vezes. Então para ler essas histórias, devem ir atrás das edições 516 a 523 de Black Panther: The Man Without Fear, e 523.1 à 529 de Black Panther: The Most Dangerous Man Alive!, publicadas entre 2011 e 2012. Estando dentro da revista de um herói urbano, o Pantera (já que T’Challa não detinha mais o título de Pantera Negra) automaticamente começou a se portar como um, enfrentou os mesmos vilões e cometeu os mesmo erros de um vigilante solitário em início de carreira, falhas que são confrontadas em aparições de Cage, Tempestade e até do Homem-Aranha. Os últimos números dão uma melhorada nessas falhas de personalidade, mas mesmo isso foi amparado em um vilão clássico do Demolidor.


Acredito que essa fase auto-conhecimento de T’Challa poderia muito bem ter acontecido ainda em terras africanas, pois querendo novamente ser digno do Deus Pantera, qual o sentido de ir para o outro lado do mundo trocar socos com criminosos de rua? Mesmo com alguns momentos bacanas, com certeza essa é uma das piores fases do herói, talvez até mais equivocada que a fase insana de Jack Kirby comandando o título. Leia apenas se for muito fã, ou um curioso contumaz da históriografia dos super-heróis negros.



12/09/2017
Rodrigo Cândido

Rodrigo Cândido

Redator

Pai do Jorge, bebedor de cerveja, ilustrador e amante de quadrinhos.