[Afrofuturismo] Nosso futuro em nossas mãos

[Afrofuturismo] Nosso futuro em nossas mãos

A pretensão de criar um novo futuro para recriar o passado, de criar novas realidades a partir da nossa própria visão e de representar a si mesmo sem esperar ninguém.

João Arolê, protagonista do meu novo livro “O Caçador Cibernético da Rua Treze”. Arte do Rodrigo Cândido.

Originalmente publicado no Medium

Tudo começou quando cansei de pedir para me representarem e fui eu representar eu mesmo.

Na verdade, começou antes, bem antes; quando eu assisti a um desenho animado e pensei: “Não gostei! Eu faria melhor!”

Afrofuturismo é a liberdade de você fazer o que você quiser com as suas próprias mãos.

Muito além de questões consideradas políticas. Muito além das caixas nas quais querem te confinar. Porque muito antes, pessoas como eu, descendentes do Continente, já escreviam, já pintavam, já cantavam, tocavam, já declamavam. Persistiam. Muito antes de inventarem um nome e um gênero em 1994.

Veja também: Afrofuturismo: o futuro é negro — o passado e o presente também

Xangô afrofuturista!

Afrofuturismo é a pretensão de criar você mesmo o futuro que deseja para os nossos e nossas.

O meu afrofuturismo começou no momento em que me percebi não representado em ficção alguma. Mas vai além disso.

“Mimimi, se não se vê, faz você mesmo!”; “Era do mimimi!”; “Politicamente correto!”

Então, fui lá e fiz.

Em dezembro de 2014, escrevi a primeira versão do meu próximo romance: O Caçador Cibernético da Rua Treze. Em um mês. Criei um universo, criei personagens, criei uma trama. Escrevi uma história inteira. Quarenta mil palavras. Pronto.

João Arolê no traço da Maria Freitas, “O Machado”.

Vai muito além da tal representatividade que hoje parece estar na moda nos movimentos ditos progressistas. Vai muito além de qualquer rótulo ou caixinha de azeitonas desconstruídas nas quais querem te enquadrar. E certamente não tem nada a ver com um tal de “politicamente correto” que até hoje não entendi bulhufas do que significa.

Enfim.

Afrofuturismo você mesmo faz. Você mesmo projeta. Suas experiências, suas vivências. Suas emoções. Suas atitudes. Sua existência como pessoa de rosto africano neste mundo.

Afrofuturismo é mudar o futuro para mudar o passado que lhe foi imposto. Afrofuturismo é traçar o seu próprio caminho como pessoa preta no mundo por meio da sua arte, por meio da sua escrita. Afrofuturismo é africanizar o seu próprio caminho daqui por diante.

An african elf

Eu escrevi O Caçador Cibernético da Rua Treze e chamei o livro de uma história afrofuturista. Porque eu tinha certeza de que poderia fazer. Porque no fundo, eu sempre soube — afinal, eu sou um homem negro, não apenas com as minhas vivências sobre ser negro neste país, mas também com todo o meu arcabouço de leituras e estudos sobre negritude, sobre efeitos do racismo, sobre história do continente africano e sobre teorias da afrocentricidade.

Sou um homem negro, que é escritor, que estudou Letras na UFRJ e na USP, e que está se encaminhando para a publicação de seu segundo romance de ficção - e que possui outros romances já prontos esperando a sua vez. Romances concebidos não apenas a partir da minha vivência, mas também em cima de bases teóricas e da minha experiência como homem feito no Candomblé e introduzido nos segredos e mistérios da minha ancestralidade.

Veja também: Afrofuturismo — O herói com rosto africano

E tem mais. Eu sou um homem negro que cresceu lendo gibis, jogando videogames, lendo muita literatura fantástica e jogando muito RPG. Todas as ferramentas para expandir a imaginação e para criar mundos imaginários eu aprendi com livros de RPG, os quais consulto até hoje. Eu consumo todas essas leituras e vivências que incitam e fomentam a imaginação até hoje.

Ou seja, tenho o que eu preciso.

Manzel Bowman

Foi então que eu criei o meu próprio jeito de criar uma história afrofuturista, de criar um cenário no qual pudesse contar aventuras afrofuturistas. Porque eu tenho tudo o que eu preciso.

Então eu criei a Cidade das Alturas, a qual mais tarde revelei o verdadeiro nome: Ketu Três. Eu fui e criei o protagonista João Arolê, o jovem caçador que me guiaria por essa nova vereda desconhecida. Porque a missão dos heróis caçadores é desvendar o desconhecido e retornar para a comunidade com os frutos do conhecimento. Porque eu sou filho de meu pai Oxóssi, então foi óbvio para mim como seria a minha primeira aventura afrofuturista.

Atentem para a sinopse:

Bem vindos a Ketu Três, a Cidade das Alturas! Uma metrópole povoada por pessoas melaninadas de todos os tipos, descendentes do Continente! Uma cidade de arranha-céus e carros voadores, repleta de entidades espirituais e tecnologias fantásticas movidas a fantasmas! Uma nação das Corporações Ibualama, governada por sacerdotisas-empresárias com poderes sobrenaturais! Um reino do Grande Rei Caçador dos Céus, Odé Òsóòsi…

O herói desta história é João Arolê, um jovem com implantes cibernéticos e poderes de teleporte e precisão dos antigos caçadores espirituais! Quando criança, Arolê sonhava em ser um astronauta, mas acabou tornando… um agente assassino a serviço das Corporações. Hoje, trabalha como um herói de aluguel que caça espíritos malignos da Rua Treze; atormentado por pesadelos todas as noites, nosso jovem herói busca uma forma de compensar as mortes que causou, antes que os ancestrais cobrem o seu derradeiro preço…

No entanto, uma série de assassinatos envolvendo celebridades e pessoas importantes de Ketu Três está prestes a arrastar Arolê para uma trama sinistra, na qual um caçador vingativo do seu passado está retornando para um acerto definitivo de contas…

Numbani, a cidade nigeriana afrofuturista de Overwatch.

É isso.

Afrofuturismo é o nosso futuro moldado pelas nossas próprias mãos.

PS: Vocês podem adquirir O Caçador Cibernético da Rua Treze clicando neste link: https://www.editoramale.com/product-page/o-ca%C3%A7ador-cibern%C3%A9tico-da-rua-treza


18/09/2017
Fábio Kabral

Fábio Kabral

Redator

Escritor caótico e menino do rio que vai conquistar o mundo com uma flecha só.