Precisamos da volta do Blaxploitation.

Precisamos da volta do Blaxploitation.

Blaxploitation foi um movimento cinematográfico que perdurou pelos EUA em toda década de 70, e nessa cena o negro era protagonista de toda a ação. Eram filmes feitos por negros e para negros, retratando muitos aspectos sociais dos afro-americanos e posteriormente virando um lucrativo filão de nicho. A ideia daquela galera era colocar os negros no centro das produções de todos os gêneros, então tinha drama, comédia, ação e terror a dar com pau, gerando muitos filmes icônicos até hoje. Quem não lembra dos muitos papéis de Pam Grier como femme fatale em Coffy ou Foxy Brown, da série policial Shaft, ou dos muitos filmes de porradaria protagonizados por Jim Kelly ? Isso porque nem citei muitos mestres do soul/funk que criaram músicas clássicas para filmes blaxploitation, dentre eles Marvin Gaye, James Brown, Isaac Hayes, Curtis Mayfield... a lista é enorme. Mas com tantos elementos positivos, por que o movimento durou tão pouco?

 

Quase tudo em demasia acaba enjoando, e foi isso que matou o cinema blaxploitation. O movimento começou com forte apelo à questões de empoderamento negro, mas conforme os produtores viram a facilidade de empurrar essas películas para o público, os filmes ficavam cada vez mais amadores em todos os sentidos. A baixa qualidade foi se refletindo cada vez mais em bilheterias menores e o ‘estilo’ morreu nos anos 80.

 

Mas retornando a esse universo e analisando o legado cultural que esses filmes deixaram, comecei a pregar fortemente pelo seu retorno.

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O ponto alto do movimento com certeza eram os filmes de ação, tramas simplórias mas com condução embalada por músicas muito massa valiam os ingressos, a galera sai das salas pilhada em reproduzir os golpes, roupas e penteados dos black action heroes. Tanto que não é incomum ver referências a filmes como Shaft e Superfly em muitas séries de hoje, feitas por quem era moleque na época do blaxploitaiton. Hoje ainda tem alguns filmes que tentam beber nessa fonte mas fazem sucesso mediano, cult, ou a comunidade preta simplesmente não liga pra eles.

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E como cinéfilo vejo o mal que isso causa, se fala muito da indústria não dar espaço mas e se quando algo aparece ninguém vê, ou não liga?

 

Cito como exemplo os trampos do rapperRZA, um cara notadamente fã de filmes de kung fu (vide WuTang Clan) que expressou esse amor em muitas fases de sua carreira, mesmo que pra alguns isso só tenha ficado evidente quando fez umas músicas para seu amigo Quentin Tarantino colocar em Kill Bill. O auge desse amor às produções de artes marciais veio na produção dos filmes The Man of The Iron Fists (1 e 2), que apesar de longe da perfeição, representam o microuniverso do que é um negro no poder: o cara escreveu a história, dirigiu, fez a trilha e ainda juntou atores de renome pra se juntar a brincadeira.


Resultado: pouca gente viu, muitos viram só para falar mal, outros falaram mal sem ver. E é o que acontece com qualquer filme de ação protagonizado por negros que não são Will Smith ou Denzel Washington, são relegados a filmes para o home vídeo que apenas entusiastas vão ver, e sabemos que quanto menos acessível mais difícil de popularizar e gerar um movimento na indústria. O resumo é que, enquanto o público acha que filmes de ação só são bons quando tem heróis ou se ocupam 200 salas de cinema, vai demorar bastante pra ver a negrada protagonista em alguma coisa. Se tem dúvidas, reveja qualquer discussão sobre o último Oscar.

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Nunca antes se questionou tanto a necessidade de heróis representativos para todos os públicos, então é a hora perfeita para a volta do movimento. E não falo de produções esparsas pra TV a cabo, falo de protagonismo nas grandes salas de cinema, falo de novamente os negros trazerem a tela toda sua ancestralidade e sex apeal pra uma geração que está ávida por heróis. Mas tenho que adiantar que essa volta ao estrelato não será protagonizada por Hollywood, e sim por sua geração, caro leitor. Consumidor vota com o bolso, e enquanto cada película que não nos reflete no topo ou dignamente não afundar contas bancárias, tome por certo que esse protagonismo nunca mais virá. Então se que ser ver nas produções, valorize e divulgue as que tem têm, critique, análise ese puder crie as suas, seja quadrinhos, cinema, youtube, apenas faça. A sua próxima geração será grata.


15/08/2016