O Grupo Mateus, uma das maiores redes de varejo do Nordeste e Norte do Brasil, negociada em bolsa sob o ticker GMAT3, apresentou um resultado financeiro misto para o primeiro trimestre de 2026. O lucro líquido caiu 21,8%, fechando em R$ 212,9 milhões, enquanto a receita líquida disparou 12,9%, atingindo R$ 9,4 bilhões. A discrepância entre o topo da conta (receita) e o fundo (lucro) revela os desafios operacionais que a empresa enfrenta ao tentar equilibrar expansão agressiva com eficiência.
Aconteceu em meados de maio de 2026, quando a companhia divulgou seus números mais recentes. Para investidores e analistas, a mensagem é clara: crescer não está garantindo rentabilidade imediata. As margens estão sob pressão, e as despesas operacionais subiram mais rápido do que as vendas em lojas já estabelecidas.
Receita cresce, mas o custo do crescimento pesa
Aqui está a coisa boa: o faturamento está robusto. Com R$ 9,4 bilhões, a receita líquida do Grupo Mateus cresceu significativamente em comparação ao mesmo período de 2025. Isso deve-se principalmente à estratégia de expansão regional e à abertura de novas unidades físicas, especialmente no formato de atacarejo (atacado de autosserviço), que tem ganhado força no portfólio da empresa.
Mas espere. Embora a receita total tenha subido, as vendas em mesmas lojas — um indicador crucial de saúde orgânica — caíram 7,3%. Ou seja, o crescimento vem quase inteiramente de novas lojas, não do aumento da produtividade nas existentes. Além disso, as despesas operacionais aumentaram, corroendo parte dos ganhos de escala esperados.
O lucro bruto, por sua vez, teve desempenho positivo. Sobe 16,1% para R$ 2,15 bilhões, impulsionado por uma melhor negociação com fornecedores e foco em produtos com maior margem. A margem bruta avançou 0,7 ponto percentual, chegando a 22,9%. Isso mostra que a empresa consegue comprar bem e vender com bom markup, mas algo nos custos fixos ou variáveis intermediários está travando a conversão desse lucro bruto em lucro líquido.
EBITDA em queda: o sinal de alerta
O verdadeiro teste de resistência financeira aparece no EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Segundo dados detalhados pelo portal MoneyTimes, o EBITDA pós-IFRS 16 — que inclui os efeitos contábeis de aluguéis como se fossem dívidas — somou R$ 543 milhões, uma queda de 7,3% em relação ao ano anterior. A margem EBITDA recuou 1,3 ponto percentual, para 5,8%.
Já o EBITDA pré-IFRS 16, que ignora esses ajustes contábeis e reflete mais diretamente a operação pura, caiu ainda mais: 18,2%, para R$ 399,8 milhões, com margem de apenas 4,3%. Essa divergência entre o crescimento da receita e a queda do EBITDA sugere que a expansão está sendo custosa. Custos logísticos, marketing para atrair clientes às novas lojas e investimentos em tecnologia podem estar pressionando os resultados no curto prazo.
Analistas do setor observam que esse padrão é comum em fases iniciais de expansão acelerada, mas alertam que a sustentabilidade depende de quanto tempo a empresa levará para que as novas lojas atinjam maturidade operacional e comecem a gerar fluxo de caixa consistente.
Estratégia regional e foco no atacarejo
O Grupo Mateus atua predominantemente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde compete tanto com grandes players nacionais quanto com redes locais consolidadas. Sua aposta no atacarejo — um híbrido entre supermercado e atacado, voltado para pequenos comerciantes e consumidores finais que compram em volume — tem sido central na estratégia recente.
Esse formato permite preços menores devido à compra em grande quantidade, atraindo um público sensível a preço, mas exigindo alta rotatividade e logística eficiente. A expansão nesse segmento tem sido rápida, mas também complexa. Gerenciar cadeias de suprimento para múltiplos formatos (varejo alimentar, atacado e eletrodomésticos) simultaneamente aumenta a exposição a riscos operacionais.
Ainda assim, a direção da empresa mantém otimismo cauteloso. Em comunicados internos, reforçaram que a estratégia de longo prazo permanece intacta: ganhar participação de mercado através de presença física ampliada e otimização contínua dos custos. A questão agora é o timing — quando essa expansão começará a refletir positivamente nos indicadores de lucratividade.
O que esperar daqui para frente?
No segundo trimestre de 2026, os olhos estarão voltados para três pontos-chave: estabilização das vendas em mesmas lojas, controle das despesas operacionais e evolução da margem EBITDA. Se a empresa conseguir frear a queda nas lojas maduras e reduzir o ritmo de crescimento das despesas, há espaço para recuperação do lucro líquido nos próximos meses.
Além disso, o cenário macroeconômico brasileiro continuará influenciando o comportamento do consumidor. Inflação controlada, mas salários estagnados, podem limitar o poder de compra das classes C e D, principais clientes do Grupo Mateus. Por outro lado, políticas governamentais de incentivo ao crédito e programas sociais podem oferecer algum suporte à demanda.
Investidores devem monitorar também possíveis movimentos estratégicos, como fusões, aquisições ou parcerias tecnológicas que possam melhorar a eficiência operacional. O setor de varejo está passando por transformação digital acelerada, e quem não se adaptar corre risco de perder relevância.
Perguntas Frequentes
Por que o lucro do Grupo Mateus caiu se a receita subiu?
O lucro caiu porque as despesas operacionais cresceram mais rapidamente do que a receita, além da queda de 7,3% nas vendas em mesmas lojas. Isso indica que o crescimento veio principalmente de novas lojas, que ainda não estão gerando retorno pleno, enquanto os custos fixos e variáveis aumentaram.
O que significa a queda de 7,3% nas vendas em mesmas lojas?
Significa que, comparando as lojas abertas há mais de um ano, o faturamento diminuiu 7,3% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. É um sinal de enfraquecimento da base existente, possivelmente devido à concorrência, mudança de hábitos dos consumidores ou saturação local.
Qual a diferença entre EBITDA pré e pós-IFRS 16?
A IFRS 16 exige que contratos de aluguel sejam tratados como ativos e passivos no balanço, impactando o cálculo do EBITDA. O EBITDA pós-IFRS 16 inclui esses ajustes contábeis, enquanto o pré-IFRS 16 ignora-os, oferecendo uma visão mais direta da operação sem distorções financeiras.
Em quais regiões o Grupo Mateus atua?
O Grupo Mateus opera principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, com forte presença em estados como Bahia, Pernambuco, Ceará e Pará. Sua estratégia foca em áreas com menor penetração de grandes redes nacionais, explorando oportunidades de crescimento regional.
O que é atacarejo e por que o Grupo Mateus investe nisso?
Atacarejo é um formato de loja que combina características de atacado (preços baixos por volume) com varejo (atendimento ao consumidor final). O Grupo Mateus investe nisso para capturar pequenos comerciantes e famílias que buscam economia, diferenciando-se da concorrência tradicional de supermercados.
Quais são os principais riscos para o Grupo Mateus no futuro próximo?
Os principais riscos incluem a incapacidade de controlar despesas operacionais, continuidade da queda nas vendas em mesmas lojas, aumento da concorrência e instabilidade macroeconômica. Além disso, a expansão rápida pode gerar problemas logísticos e de gestão se não for acompanhada de eficiência operacional.